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Entrevista - Mano Menezes: Talento ainda é fundamental

Jaeci Carvalho - Enviado Especial

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Publicação:

14/02/2011 09:13

 

Atualização:

14/02/2011 11:59

Paris — Ponderado, educado, cortês, excelente profissional, o técnico da Seleção Brasileira, Mano Menezes, se mostrava tranquilo horas antes do amistoso contra a Seleção Francesa, quando recebeu a reportagem do Correio para um bate-papo. Consciente do que precisa fazer para resgatar o verdadeiro futebol brasileiro, cultiva a meta de que é mais importante formar um grupo forte para 2014, mesmo que sofra reveses como as derrotas para Argentina e a própria França. Em ambas as partidas, seu time atuou de igual para igual e perdeu nos detalhes, sem contar que, na última, não contou com Neymar e Ganso, dois jovens craques que já fazem a diferença.

“Traçamos um objetivo e vamos nessa linha. Mas as vitórias terão de ocorrer, pois, sem elas, não vai dar para equilibrar o trabalho e isso será um sinal de que algo está errado”, afirma. Sereno, sem fugir de nenhuma pergunta, esse gaúcho de 48 anos falou do seu momento no comando da única Seleção cinco vezes campeã do mundo, da carreira e dos valores morais recebidos dos pais, que lhe dão a diretriz para a vida e o trabalho.

Você foi convidado pela CBF para resgatar a verdadeira história do futebol brasileiro. Portanto, resultados de Copa América e Copa das Confederações, como os de mistosos, não serão decisivos para sua permanência.
Penso que formar uma Seleção Brasileira com uma característica, um padrão do futebol que queremos ver, é importante. Esse trabalho vai passar por etapas, e ganhar dentro dessas etapas pode não ser o mais importante. Há maneiras de ganhar e de ganhar, de perder e de perder. Precisamos ver naquilo que a Seleção vai formando uma consistência do que pretendemos para 2014. O resultado é parte importante de uma formação, porque passa confiança para os jogadores, para o técnico e para quem está analisando. Mas, sem dúvida, nem sempre é o mais importante.

O presidente da CBF garantiu a você que os resultados não serão decisivos para sua manutenção, e, sim, o trabalho realizado, formando um grupo que apresente o futebol que nos consagrou…

Veja um exemplo bem objetivo. Jogamos contra a Argentina, perdemos por 1 x 0, mas não jogamos mal. Poderíamos ter vencido também. Mas não podemos ficar perdendo jogos que, sabemos, tínhamos condições de vencer. É claro que não podemos perder toda hora, mesmo jogando bem, porque será sinal de que precisa melhorar, encontrar soluções. Esse é meu objetivo no comando da equipe. Formar um time forte para o Mundial de 2014, com padrão de jogo, qualidade, mas em busca das vitórias também nessa preparação.

Em relação aos jogadores brasileiros, já não temos tantos craques como no passado e não podemos ficar vivendo de Ronaldinhos Gaúchos, com 31 anos. Temos Neymar e Ganso despontando. O que acha da nova safra?

Penso que temos um grupo muito talentoso, alguns jogadores muito promissores, mas apenas promissores. Não temos um parâmetro confiável em nível de competição internacional, contra grandes seleções, e é isso que estamos vendo neste momento: pondo esses atletas com a camisa da Seleção principal para saber que tipo de comportamento terão ao enfrentar as potências do mundo. Só há esse caminho para ver que tipo de comportamento eles vão ter. E, mesmo com um risco maior, escolhemos jogar contra Argentina, França, Holanda, Alemanha, pois é muito importante em termos de comparação. Sei que, contra Irã, Ucrânia, vamos jogar 20 vezes e ganhar 19, mas ainda vai faltar a comparação com os grandes jogadores e grandes seleções. O problema é que nem sempre os fortes estarão disponíveis e alguns não querem enfrentar o Brasil para não correr riscos. Mas sempre que houver essa possibilidade, vamos atuar contra equipes de primeira linha do futebol.

Neymar e Ganso são os jogadores mais promissores, Robinho realidade e Kaká sempre foi um coadjuvante. O que pensa sobre eles?

Vai depender única exclusivamente do rendimento deles. Você não precisa ter essa preocupação com Kaká, mas precisa ter com Neymar e Ganso. Kaká é uma realidade, já está acostumado à Seleção e sabe que postura deve ter. O futebol envolve grandes circunstâncias e talvez a grande chance de o Kaká brilhar tenha sido a Copa da África do Sul, mas ele não chegou bem fisicamente. Para disputar uma grande competição, tudo conspira a favor, mas é preciso o grupo estar bem para que o talento sobressaia. Estou aqui para fazer uma Seleção forte, e quem vai assumir essa responsabilidade de brilhar vai depender do momento e do próprio grupo. Kaká tem condições para ser esse jogador, pois tecnicamente é acima da média. Mas outros jogadores vão aparecer nesse período e alguma surpresa pode nos ajudar.

Mas você admite que só se ganha Copa do Mundo com talento, já que foi assim com Pelé, Romário, Ronaldo...?
Penso que o talento continua sendo fundamental. A fórmula que se tem usado é trabalho com comprometimento, elevado ao talento. Aí, se o jogador talentoso estiver comprometido e a gente conseguir fazer um trabalho bem planejado, bem organizado, pois isso passa a ser muito importante hoje no condicionamento de uma equipe, estaremos no caminho certo.

Dos 22 jogadores que trouxe a Paris, todos atuam na Europa, e bons valores foram deixados no Brasil. Você não acha que o ideal seria não abrir tanto o leque, como fizeram alguns, chamando 100 jogadores, e trabalhar no máximo com 40 para definir os 23 que vão ao Mundial?

Acho que 90 ou 100 são um número muito alto e posso incorrer no erro de me perder na trajetória e ter pouco parâmetro confiável para a avaliação. Uma amostragem muito pequena também é pouco para se fazer a avaliação. Acho que o ideal é ter um grupo com alternativas, em que se possa testar nos jogos e dar o máximo de sequência para a análise correta do que o atleta pode produzir.

O que pesa na avaliação de um atleta?

Sou a favor da disciplina, pois sem ela não se vai a lugar nenhum. Mas não aquela autoritária, de querer tudo muito rigoroso, de não pode fazer isso, aquilo.

Cada um tem a sua responsabilidade, assim como eu tenho como técnico. Temos grandes jogadores, com grande trajetória, que têm de assumir essa responsabilidade. Saber o que é importante fora de campo, que sua imagem seja respeitada, cabe a cada um. Não temos de avaliar a vida de ninguém. O que me interessa mesmo é o comportamento dentro do campo, jogador com qualidade, personalidade para saber resolver os problemas que acontecem numa partida de futebol, e muitas vezes o técnico não tem nem condições de interferir. O jogador inteligente, com capacidade de leitura de jogo e de fazer correções dentro do campo, é fundamental.

Independentemente o adversário, é preciso resgatar o futebol brasileiro, e um esboço a gente viu na sua estreia, contra os Estados Unidos. É aquilo que você quer sempre?

É aquilo que eu quero. Temos capacidade de jogar assim. De períodos em períodos, o futebol mundial passa por transformações, e hoje nós vemos as seleções, inclusive a da Espanha, apresentando um futebol muito parecido com aquele que queremos na Seleção Brasileira. Não vamos copiar a Espanha, até porque não precisamos. Temos de copiar o Brasil vencedor, de trajetória altamente positiva e vencedora.

Como vê o futebol mundial hoje? Houve alguma evolução da Holanda de 1974 para cá? Já tivemos duas Copas, 1994 e 2006, decididas nos pênaltis...

Existe uma equiparação em termos de trabalho. A gente vê hoje, numa equipe menor, em clubes, que o trabalho é bem parecido com o feito nos grandes clubes. A diferença antes era acentuada. Hoje, não. Todos têm acesso às informações, o que não ocorria. A parte física se equiparou muito, mas acho que mesmo entre as Copas decididas nos pênaltis houve uma diferença grande. O futebol jogado na África do Sul foi acima dos últimos anos, pelo menos o das equipes que chegaram à fase final. A decisão França x Itália (2006) foi abaixo de Holanda x Espanha (2010) em termos técnicos. Quase que o desfecho foi semelhante, mas com futebol diferente.

Em relação à Seleção Brasileira, você esperava ser o treinador tão cedo?

Nunca fiz um planejamento pessoal de chegar à Seleção para a Copa de 2014. Isso é consequência do trabalho e sempre estive preparado para as oportunidades. Mas sempre me preocupei em fazer um ótimo trabalho no dia a dia. O futuro é consequência. Se você pensar muito lá na frente, não faz o momento. E, se não fizer bem o momento, não vai chegar a lugar nenhum.

O que é ser técnico da Seleção Brasileira e o que mudou em sua vida?

Ser técnico da Seleção é um privilégio para o treinador de futebol, pois tem a capacidade de poder trabalhar com os melhores jogadores do mundo e ao mesmo tempo uma responsabilidade grande, pois está dirigindo o que há de mais emocionante e de paixão para o torcedor brasileiro. É preciso estar muito capaz, equilibrado, muito bem com a vida, para que se conduza com lucidez à frente da Seleção. A vida do clube e a da Seleção são diferentes. O clube te puxa o dia a dia; na Seleção, você precisa ir atrás do trabalho para não se acomodar. Na Seleção, você pode escolher os melhores. No clube, não. Manter o entrosamento de uma convocação para outra, de uma partida para a outra é importante para os jogadores se sentirem confiantes, se conhecerem mais.

Qual é a sua visão sobre os empresários dos jogadores da Seleção?

Penso que a gente vai avançando nessa relação. Estamos criando um ambiente, e tudo o que for saudável e não atrapalhar, não for excessivo, você pode permitir. Mas cada coisa tem a sua hora. É preciso acabar com essa mania de a toda hora que o jogador está concentrado o agente resolve aparecer para conversar. Vai conversar em outro momento, não precisa vir aqui. Mas, como é um momento de exposição, as pessoas se aproveitam para se mostrar. O jogador também precisa ter mais responsabilidade nisso e estabelecer uma relação mais transparente com o seu agente. Não adianta fazer normas, regras e as querer impor de cima para baixo. Temos de nos comprometer com uma relação saudável, para ter condição de concentração e render bem no jogo, que é o nosso trabalho.

Falta-nos o ouro olímpico. É um sonho seu pôr a medalha olímpica no peito?

Se o Brasil conquistar a medalha olímpica, o título será do Brasil. Quem ganhar vai ficar na história, mas uma história construída aos poucos, em cima dos momentos em que não ganhamos. Será uma consequência do futebol. O Ney Franco está fazendo um belíssimo trabalho.

Essa geração nova de técnicos me parece mais inteligente, polida. Você vê assim também?

Primeiramente, é preciso valorizar os mais antigos. Hoje temos treinadores com uma linha de conduta, independentemente do resultado, inspirando o respeito das pessoas. São novas ideias, novos momentos, e é difícil se afirmar num mundo extremamente competitivo.

O que passa pela sua cabeça hoje? Está totalmente adaptado à nova função? Sente aquele friozinho na barriga?

O frio na barriga é fundamental, pois, quando se perde, isso fica muito perigoso. Frio na barriga quer dizer motivação, uma grande oportunidade que está à sua frente e você deve aproveitar.

O futebol brasileiro involuiu ou evoluiu?

Evoluiu, taticamente. Talvez precisemos acelerar a melhora estrutural, fora de campo, estruturas de clubes, e fazermos a Copa no Brasil é um grande fator para melhorar tudo no país.

Você se interessa por política?
Não gosto de política partidária e não me envolvo, mas é claro que interessa, pois envolve nossa vida. Penso que devemos aproveitar a oportunidade para que tenhamos uma grande Copa. O povo deve ajudar e não ficar somente dependendo dos governantes.

Você está morando no Rio. A violência lhe preocupa?

A violência me preocupa como um todo. Willian Morais (jogador do Corinthians), que dirigi, foi assassinado brutalmente, mostrando a banalidade em que a vida se transformou. Isso é uma questão nossa, de educação, de melhoria de vida, de valores, que a sociedade vai ter de resolver.

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